
Vou contar um pouco da minha surpresa na ultima brincadeira, mas antes vou falar um pouco de Nietzsche, o filósofo maldito. Maldito entre entre outras coisas por ter lançado uma ideia cuja força ultrapassou a arena do bem e do mal como aquelas tacadas de baseball que vemos nos filmes onde a bola some no céu. A ideia do "para além do bem e do mal" é isso, a possibilidade de pensarmos em algo que se coloca para além de A e B, de 1 e 2 de < ou >. Enfim, algo que promove uma forte ruptura com o eterno jogo de pingue-pongue de onde parece ter se originado toda a saga do gênero humano desde os tempos imemoriais. De fato, as guerras e a tensão contra os "filhos da puta do lado de lá" parecem reger nossa história, como se "sem tensão não há tesão", que aqui não se configura como algo meramente sexual, mas o próprio tesão em viver mesmo. O "nós" só existe se houver o "eles" e de preferência se esse "eles" forem os caras maus. Essa é a nossa saga: castelos, fortalezas, muralhas, até a Estrela da Morte do Império de George Lucas, tudo para lidar com o outro lado. O cometa de Nietzsche supera isso e dá um novo significado a essa luta entre contrários resignificando cada elemento como um agente de força apenas ou seja, A detém força assim como B, nenhum possui uma etiqueta que os identifique como bom ou mal, são forças que podem se confrontar ou se ajudar.
Essa concepção nietzscheana é muito útil à compreensão como ferramenta aplicada às análises políticas do passado ou contemporâneas a respeito da busca e consolidação do poder. Através delas é possivel entender que não há mocinho nem bandido quando o objetivo é o poder enquanto alvo e enquanto prática. Qualquer exemplo que se mostre não irá resistir a uma análise profunda e logo os traços de "vilão" logo começarão a aparecer, mesmo no mais bonzinho de todos. É um "esforço em vão", já dizia Nietzsche pois, diante do olhar do lobo (força maior), tanto faz a pelagem(o discurso) da ovelha. Perceba que não se trata de mais uma vez resgatar o relativismo pós-moderno que transformou a humanidade em um arquipélago incomomunicável, onde todos estão conectados mas ninguém fala nada porque "cada um tem o seu". Também de que não se trata de negar que no mundo haja gente ruim da pior espécie. A questão é que, em se tratando de poder, as regras são outras, e os demônios e anjos deixam seus adereços do lado de fora do ringue.
Não deixa de ser válido, por mais indigesto que seja ( e os advogados de defesa de delegacia o vivem fazendo) analisar os dois lados, lembrando que analisar não é o mesmo que concordar. Sem duvida Bin Laden foi um dos maiores "bad guys"da humanidade, mas mesmo ele tinha suas razões, das quais nunca vamos saber ao certo tamanha a complexidade de sua relação com os EUA, ora amistosa ora conflituosa. O fato é que os vilões são dialeticamente necessários para compor qualquer enredo de um herói, mas muitas vezes os vilões são meros bodes expiatórios cuja função é servir de fonte de glória para o herói, quantas vezes já nos deparamos com religiosos radicais que passam o dia falando do mal , bem mais do que no bem ? E muitas vezes no final aplaudimos, por ignorância ou cinismo, aqueles que são os "verdadeiros filhos da puta".
De volta à brincadeira, de um modo geral ela vai se formando a partir de si própria, sem um roteiro prévio e é uma de suas fontes de alegria e diversão. E o diálogo que antecedeu a última brincadeira foi assim:
- Papai ?? Hoje na brincadeira não vai ter gente do mal (disse Thomas).
- Como assim? (eu perguntei)
- Hoje nós vamos brincar sem ninguém do mal.(disse ele)
- E como faremos pra montar uma estória sem eles ? (eu perguntei)
- Os colegas vão se ajudar e vão brincar juntos! Papai!
Fiquei surpreso pois não havia me dado conta de que, mesmo sendo leitor de Nietzsche e de "já saber" disso, que nossa existência independe de vilões, eu estava repetindo o caminho da dialética cansada dos velhos quadrinhos e muito comum nos roteiros rasteiros e manjados. Ponto pro Thomas, que pensou em uma brincadeira não necessariamente pautada na luta entre o bem e o mal, mas na solidariedade, pois um carrinho ajudou o outro a sair da lama e no final todos apostaram uma corrida.

