sábado, 21 de janeiro de 2012

O Mundo sem vilões...


Incrível a capacidade que os pequenos têm de nos surpreender e geralmente ela surge nos momentos lúdicos quando estamos envolvidos com eles, imersos na brincadeira. A imersão - quando você se desliga do mundo adulto e adentra o universo infantil - é uma experiência super importante para a relação com meu filho, o pequeno Thomas, na qual eu procuro não atender ligações e não lidar com problemas que me cercam, é o momento da trégua, pois é o momento dele e acreditem, o resultado é um rosto feliz e um "Eu te amo pai" que não há palavra pra expressar!

Vou contar um pouco da minha surpresa na ultima brincadeira, mas antes vou falar um pouco de Nietzsche, o filósofo maldito. Maldito entre entre outras coisas por ter lançado uma ideia cuja força ultrapassou a arena do bem e do mal como aquelas tacadas de baseball que vemos nos filmes onde a bola some no céu. A ideia do "para além do bem e do mal" é isso, a possibilidade de pensarmos em algo que se coloca para além de A e B, de 1 e 2 de < ou >. Enfim, algo que promove uma forte ruptura com o eterno jogo de pingue-pongue de onde parece ter se originado toda a saga do gênero humano desde os tempos imemoriais. De fato, as guerras e a tensão contra os "filhos da puta do lado de lá" parecem reger nossa história, como se "sem tensão não há tesão", que aqui não se configura como algo meramente sexual, mas o próprio tesão em viver mesmo. O "nós" só existe se houver o "eles" e de preferência se esse "eles" forem os caras maus. Essa é a nossa saga: castelos, fortalezas, muralhas, até a Estrela da Morte do Império de George Lucas, tudo para lidar com o outro lado. O cometa de Nietzsche supera isso e dá um novo significado a essa luta entre contrários resignificando cada elemento como um agente de força apenas ou seja, A detém força assim como B, nenhum possui uma etiqueta que os identifique como bom ou mal, são forças que podem se confrontar ou se ajudar.

Essa concepção nietzscheana é muito útil à compreensão como ferramenta aplicada às análises políticas do passado ou contemporâneas a respeito da busca e consolidação do poder. Através delas é possivel entender que não há mocinho nem bandido quando o objetivo é o poder enquanto alvo e enquanto prática. Qualquer exemplo que se mostre não irá resistir a uma análise profunda e logo os traços de "vilão" logo começarão a aparecer, mesmo no mais bonzinho de todos. É um "esforço em vão", já dizia Nietzsche pois, diante do olhar do lobo (força maior), tanto faz a pelagem(o discurso) da ovelha. Perceba que não se trata de mais uma vez resgatar o relativismo pós-moderno que transformou a humanidade em um arquipélago incomomunicável, onde todos estão conectados mas ninguém fala nada porque "cada um tem o seu". Também de que não se trata de negar que no mundo haja gente ruim da pior espécie. A questão é que, em se tratando de poder, as regras são outras, e os demônios e anjos deixam seus adereços do lado de fora do ringue.

Não deixa de ser válido, por mais indigesto que seja ( e os advogados de defesa de delegacia o vivem fazendo) analisar os dois lados, lembrando que analisar não é o mesmo que concordar. Sem duvida Bin Laden foi um dos maiores "bad guys"da humanidade, mas mesmo ele tinha suas razões, das quais nunca vamos saber ao certo tamanha a complexidade de sua relação com os EUA, ora amistosa ora conflituosa. O fato é que os vilões são dialeticamente necessários para compor qualquer enredo de um herói, mas muitas vezes os vilões são meros bodes expiatórios cuja função é servir de fonte de glória para o herói, quantas vezes já nos deparamos com religiosos radicais que passam o dia falando do mal , bem mais do que no bem ? E muitas vezes no final aplaudimos, por ignorância ou cinismo, aqueles que são os "verdadeiros filhos da puta".

De volta à brincadeira, de um modo geral ela vai se formando a partir de si própria, sem um roteiro prévio e é uma de suas fontes de alegria e diversão. E o diálogo que antecedeu a última brincadeira foi assim:


- Papai ?? Hoje na brincadeira não vai ter gente do mal (disse Thomas).

- Como assim? (eu perguntei)

- Hoje nós vamos brincar sem ninguém do mal.(disse ele)

- E como faremos pra montar uma estória sem eles ? (eu perguntei)

- Os colegas vão se ajudar e vão brincar juntos! Papai!

Fiquei surpreso pois não havia me dado conta de que, mesmo sendo leitor de Nietzsche e de "já saber" disso, que nossa existência independe de vilões, eu estava repetindo o caminho da dialética cansada dos velhos quadrinhos e muito comum nos roteiros rasteiros e manjados. Ponto pro Thomas, que pensou em uma brincadeira não necessariamente pautada na luta entre o bem e o mal, mas na solidariedade, pois um carrinho ajudou o outro a sair da lama e no final todos apostaram uma corrida.





segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O amor em tempos de Zumbis


Dizer que é muito bom quando o som ou a poesia que você curte influencia no seu trabalho é lugar comum, meio que óbvio para quem trabalha com criação. Isso se estende para outras áreas não necessariamente de vanguarda, pois as vezes algo simples, no aqui e agora, já é o suficiente para dar o contorno que é preciso. O tema dos zumbis não é novo na cultura pop e está longe ( e nem deve) de conseguir unanimidade entre os críticos, não à tôa, Saramago pediu para que tomassem cuidado com a adaptação de sua obra "Ensaio sobre a Cegueira" justamente para que não se tornasse (mais) um filme de zumbis. O exemplo do mestre Saramago é apenas um dos inúmeros existentes contrários à cultura zumbi, julgada de "mal gosto", demasiadamente "trash" e sem graça como qualquer outra coisa quando comparada aos monstros clássicos.

Assim, zumbis são malquistos e desprestigiados entre os críticos. Mas talvez porque seus olhares se prendem àquilo que é claramente visível na pele, diga-se de passagem, no podre, na decomposição, no sangue coalhado, grunidos, olhos saltados e esbranquiçados e todos os recursos que os mestres de maquiagem conseguem trazer para a tela. O fato é que há pouca reflexão sobre esses mortos que andam.

É possível captar uma representação nessa temática ? Creio que sim, afinal o que está sendo dito é que a sociedade contemporânea, assim como qualquer outra coisa que se configura no plano real das coisas, é passível de um fim e que este fim pode se apresentar de várias formas, mas independente da forma como se configura a ameaça, seja através de um vírus, de um cometa, de vampiros, de terroristas, de fanáticos religiosos, etc, sempre o que está sendo ameaçado são os laços afetivos, os laços que nos unem. Engana-se quem pensa que é a propriedade. Eu aposto que se houver um novo Orson Wells em nosso tempo a falar na rádio, televisão ou internet sobre uma ameaça em larga escala e com alto poder de destruição se você, caro leitor, não vai pensar (digo se preocupar mesmo) imediatamente nas pessoas que você ama, seu filho ou filha e sua amada(o)...foda-se o carro novo, a geladeira cheia de bohemias, sua coleção de selos e discos...você vai querer muito é ver essas pessoas. Exemplo disso foi o apagão ocorrido há poucas semanas atrás aqui em Manaus, onde a perda de sinal elétrico naquela noite inviabilizou todo e qualquer tipo de comunicação e de locomoção das pessoas, elevando a tensão nas ruas e nos locais de grande concentração de pessoas como shoppings, onde as pessoas não conseguiam sair do estacionamento devido à escuridão e outras ficaram presas por horas nos elevadores.

Não à tôa, em filmes de zumbi, esse recurso é bastante utilizado para aumentar a tensão em algum momento: o pai ou namorado que cruza a cidade infestada para tentar achar seu ente querido, o que geralmente acaba dando errado. Ao contrário do personagem caipira de raiz Daryl Dixon, que procura manter apenas uma taxa de 10% envolvimento com os demais sobreviventes de The Walking Dead e acabou se tornando um ídolo na série, porque a aparente ausência de envolvimento emocional o torna livre a ponto de seguir trilhas sozinho munido de um Horton Scout crossbow (tipo de arco) com apenas uma flecha. Mas não se enganem, ele talvez seja um dos personagens que mais sente essa agonia a qual me refiro, essa agonia do NADA, de até então lutar contra uma sociedade injusta e simplesmente um dia acordar com ela em pedaços e não saber lidar com isso, sentir na pele a angustia de viver em um lugar tomado pelo nada, ali por onde a morte andou.

Esse é o mérito do roteiro zumbi, seja ele adaptado para uma HQ, um curta ou longa, não é apenas o "gore", o trash e o xarope de groselha, mas a sensação de desamparo que um mundo tomado por mortos proporciona aos que ainda conseguem sentir isso. E os filmes de zumbis que conseguiram obter esse êxito de nos transmitir o fim das leis, o fim do bom senso, a inversão da estética, o despedaçar das relações e a fragmentação do convívio social acabam, para os olhares mais atentos, ultrapassando a mera categorização de "filme de terror". Os zumbis de "The Walking Dead" são o pano de fundo, eles estão presentes, mesmo que ausentes. A trama é humana, suas relações e posicionamentos diante do real indigesto é que conduzem o roteiro da HQ que está sendo muito bem adaptada às telas.

Tão bem que inspirou a mim e a Rayssa a compor uma musica chamada "Bad Days" cuja letra nada mais é do que um conto de amor de um cara que simplesmente perdeu sua amada durante o caos instaurado. Os zumbis aparecem na letra condensando tudo de ruim que pode haver em uma situação como essa, mas não o suficiente para impedir de procura-la até o inferno, se for preciso. Abaixo segue a letra, com alguns possíveis erros no inglês. Do caos também se inspira.

Abraço

Matheus Gondim

BAD DAYS (Dry Martinis)

He will never forget that day
The day when the deads came away
band of bag of bones, blood, flesh n´ flies
That day he knew he couldn´t hide

He search her on the streets, highways, roads burnin your feet
still feeling your smell, will not give up, insisting to the hell

Buddy says That ll´ be the Day
The day when you say goodbye
But was not the time and day to die
That day he knew he couldn´t cry

REFF

He will never forget that day
The day when the deads go away
No more bones, blood, flesh n´ flies
But now he knows that don´t need to die

REFF

FIM

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

SURF OF THE DEAD



A banda Soda Billy começou em 2003 com um trio de baixo, guitarra e bateria já tocando temas de "vintage intrumental rock" ou mais conhecido como surf music, e manteve até hoje essa formação, apesar da entrada de novos intrumentos como o incendiário naipe de metais. Hoje a banda passeia por vários estilos, entre eles o jazz swing e o latin jazz. Isso levou alguns fãs a ficarem revoltados, mas nada que uma boa surfada não resolva. Nesta pequena entrevista o guitarrista da banda falará um pouco do lado surfer da Soda que sempre esteve ali presente, mesmo com os altos e baixos da maré baré e falará sobre o evento Zombie Walk onde a banda fará uma dose especial só de surf. Pegue sua prancha!


RETROGIRO: Surf em Manaus ? Como é isso Matheus??

Sim, certo domigo de manhã eu ia passando pela frente do Cig´s (zoologico do exercito) eu vi um aglomerado de pessoas na parada de ônibus e eis que no meio do povo havia um cidadão sem camisa e segurando uma prancha de surf, o cara estava esperando o busão "ponta negra" pra tentar pegar uma onda (risos), neste momento eu pensei: tem que rolar surf music em Manaus (risos). Bem, falando sério (mas o lance do surfista rolou mesmo) além do Pulp Fiction, que eu acho que deve ser o responsável em termos de divulgação do estilo para pelo menos 60% do povo que hoje curte, muita gente começou a curtir aí, mas houve uma dessas promoções de CD no Carrefour e lá tinha vários cds´s que o povo não comprava porque não conhecia, nesse bolo eu achei uma coletânea de swings, de doo wop e outra de surfs...todas muito boas. Acho que esse cd me ajudou muito.

RG: E o público? Curte ?

Sim, porque são musicas muito boas e todas tem melodias marcantes, além do que todo mundo assistiu a Pulp Fiction e Kill Bill. Mas sempre tem alguém sem noção que fica reclamando na frente do palco e gritanto: Tóca Raul porra! (risos), isso faz parte do shows de rock em qualquer cidade neste país...vi isso em Curitiba tb (risos).

RG: E porque um show só de surf ? É a primeira vez que isso ocorre, certo ?

Sim, na verdade esse é um sonho antigo meu. O surf é um dos fortes elementos musicais da banda..mesmo com o nome de "Soda Billy" ela foi sempre mais surf do que rockabilly, aliás a Soda nunca foi uma banda de rockabilly autêntico mesmo. No nosso cd o ouvinte tem ali pelo menos 4 surfs: Long long road, Surfando no Igarapé do 40, Kid Mostarda e Dizzy´s Surf que devem estar presentes no set dessa apresentação, além dos clássicos que agente ja faz, como The Ventures, Dick Dale e algumas atuais do Los StraitJackets.

RG: Além do que ja falou aqui, algo mais especial deve rolar ?

Sim, nesta ocasião teremos na banda tocando o show todo (pois o Ricardo Peixoto vai estar viajando nesta data) o nosso querido Renato Henriques que é de Campinas mas está agora aqui em Manaus, tocava na banda Del-O-Max e curte muito esse universo surf, vai ser muito legal fazer esse som com ele, que também vai atuar como DJ no dia. Além dele teremos o Tércio Macambira, nosso novo e talentoso batera, fazendo dobradinha junto comigo com a Dry Martinis (2ª banda) e com a Soda...Ah, ja ia me esquecendo, neste show não vou tocar com a minha semi acustica "Red Cherry", vou trazer à tona a minha velha companheira a Strato "Poison Ivy" ainda da época da Veneno da Madrugada, pois o timbre dela é bem mais surf que a outra...mas para os fãs da "Red Cherry", podem ficar tranquilos pois ela vai estar linda e maravilhosa no show da Drys..

RG: O que você acha dessas bandas novas que se intitulam "surf music" ?

Bem, isso definitivamente não é surf music, elas bebem na fonte do Ben Harper, que é um ótimo musico, enfim é uma otima referência, mas não é surf music, acho que deveria se chamar "lual hemp music"...(risos)

RG: E a cena no Brasil ?

Acho que a cena alternativa nunca esteve tão boa quanto agora, ha vários circuitos e várias possibilidades e o melhor, pessoas capacitadas envolvidas nisso de corpo e alma. Em Manaus temos o povo do Coletivo Difusão que tem dado show de bola na divulgação da produção local e isso tem rolado por todo esse país. Isso não é só bom para a cena surf mas para todo o "no mainstream", é uma democratização das possibilidades de divulgação dos trabalhos agora é claro, se em uma democracia você abre espaço para diversas opiniões e visões de mundo e se depara com opiniões boas e a mais pura idiotice, na democracia da cena alternativa musical ocorre o mesmo, muita banda autoral boa e muuuuuita coisa ruim querendo pegar carona na onda do "autoral", bem, mas isso é pano pra manga para outra entrevista....

RG: com certeza....(risos) .... e o Zombie Walk ?

Quinta edição do evento...um sucesso de participação espontânea das pessoas, show de criatividade...espaço para as bandas..enfim, uma otima mobilização ainda que sem motivos politicos, até porque ja existem varias mobilizações nesse sentido, o ZW não é neutro politicamente, porque não existe neutralidade politica, se fosse defini-lo politicamente eu o definiria como um movimento de livre expressão, tanto que ninguem é obrigado a se zumbificar, há quem prefira ir de caçador de zumbis ou de sobrevivente...é tão livre que se algum zumbi quiser levantar uma faixa contra uma usina hidrelétrica pertencente à Umbrella Corp. pode levantar à vontade! (risadas). Quatro otimas bandas manauaras vão estar fazendo um show a R$ 2,50 cada...mais barato que um salgado, que custa pelo menos uns 3 em qualquer padaria...a concentração será às 20h em frente ao CCAA da Djalma de lá segue às 21h ate o boulevard, depois ate a Major Gabriel e então ate a Tarumã que é a rua do Toca da Sinuca...as bandas começam às 22h...com apresentações de 40 minutos cada e intervalos com os Djs Henriques e Mônica Cardoso. Será uma noite bem divertida...as bandas são Tudo Pelos Ares, Dry Martinis, Playmobils (a true e não a fake) e Soda Billy.

RG: Valeu Matheus, nós do BLOG RETROMUNDO :: dias sim, dias não, do qual inclusive você faz parte (risos), desejamos um otimo evento!

Valew, obrigado em nome de todas as bandas e de todos envolvidos na produção do evento..forte abraço a todos e boa diversão!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Qualidade do público cinematográfico

Em agosto de 2010, durante uma semana, participei do curso ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, sobre “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográficas”. Para quem não conhece, o mesmo é Editor e criador do site Cinema em Cena. Fato é que o curso serviu não só para ensinar a “olhar o cinema”, mas principalmente desencadear nos participantes o senso crítico e uma leitura mais acurada de todos os detalhes que permeiam a obra transposta na tela.

Primeiramente, não se quer aqui estipular um gosto geral ou superior, isto é, não estou dizendo que todo mundo deve amar “Cidadão Kane” e considerá-lo o melhor filme de todos os tempos, eu particularmente ainda não compartilho desse “amor”, mas claramente sei identificar alguns bons motivos que levam tal filme a ser cultuado.

É por aí que destaco a qualidade do público, a capacidade de identificar os detalhes do filme, posicionamento de câmera, atuação, fotografia, direção de arte, figurino, montagem, etc. Pequenas características que comumente passam despercebidas, mas que podem influenciar ainda mais na sua admiração pela obra. Enfatizo questão explicitada no curso sobre a necessidade de justificar seu gosto e sua escolha, não se contentar simplesmente em dizer que o filme é ruim, ou bom, ou chato. O que te leva a pensar dessa forma? Não basta ver muitos filmes, é preciso talvez “degustar”, como se faz com o vinho. Mas saindo do sentido figurado, é preciso refletir sobre o que se viu, o que foi passado, a tal da mensagem, tudo faz parte. No mínimo, deve-se saber por que gostou ou por que não gostou.

Dois exemplos recentes, que percebi durante a projeção e serviram para formar melhor meu convencimento sobre as respectivas obras, talvez tenham me tornado um cinéfilo um pouco melhor e ilustram bem o assunto tratado.

Primeiro o filme RED. Especificamente falando do personagem do Karl Urban. Ele é apresentado falando com a mulher, dando o tom leve do filme, mas de repente já aparece friamente assassinando uma pessoa, chutando uma cadeira e fazendo com que a mesma se enforque. A partir daí, como se fosse uma cópia, o mesmo passa a desempenhar o papel daquele responsável por matar o mocinho, tal qual em Supremacia Bourne. Mas o caminho final que será seguido por ele só é devidamente mostrado quando o retrata como o pai de família, mostrando-o em casa no quarto da filhinha. O diretor simplesmente trouxe o público para perto e pode-se ter certeza absoluta que ao final ele não morrerá, ainda ajudará o mocinho. Por mais que pareça mero detalhe e passe despercebido, fato é que instintivamente o espectador foi levado pelo diretor a se afeiçoar ao “vilão”. Mas foi de mau gosto, artificial e acabou por tornar o filme mais sem graça ainda, adiantando inclusive o final.

Outro ponto está em “A Rede Social”, que me fez gostar ainda mais do filme. A cena em questão talvez seja a mais importante, pois retrata exatamente o momento em que Mark deixa de ser o simples geek inteligente para virar o “cara”. Falo da cena em que o personagem Sean Parker telefona para Mark, dizendo que foi preso, que armaram pra ele, mas que vai ficar tudo bem. Perceba a mudança no rosto de Mark, como ele deixa no ar que Sean não faz mais parte e que agora só há um responsável pelo futuro do Facebook, mas principalmente, repare no apagar de uma luz da sala ao fundo. Tenha plena certeza, não foi um equívoco, foi narrativa cinematográfica, um servente qualquer não apagou por acaso a luz enquanto o diretor filmava, resta saber o que aquele ato quis dizer pra você. Pra mim ele disse muita coisa, aquela cena me disse tudo: como nasceu o bilionário que hoje comanda uma das maiores empreitadas no mundo. Aquele momento é definitivo, deixou de ser aquele menino influenciado por todos, passou a ser o homem de negócios que comanda o Facebook, disse “acabou pra você aqui Sean”. É puro cinema, estudo de personagens.

Esses exemplos não só demonstram como a experiência de assistir a um filme pode ser ainda melhor, mas desencadeiam uma outra questão crucial para os dias atuais e que é o motivo do artigo: a partir do momento em que o público se tornar mais exigente, for mais instruído em termos cinematográficos, ler mais, entender mais, isso forçará os grandes estúdios e realizadores a buscarem também a qualidade dos filmes, o que enseja a própria evolução do cinema. Isso sempre aconteceu e sempre vai acontecer, mas pode se dar em maior ou menor medida desde que o público se mostre capaz de absorver essa gama de informações.

Tenho que dizer, sinceramente me incomoda ver pessoas que vão ao cinema simplesmente por não ter mais o que fazer, pra ver qualquer filme de qualquer forma, sem nenhuma pretensão de sequer prestar atenção ao enredo. Isso acontece diariamente e são esses tipos que geralmente falam durante o filme, atendem celular e fazem barulho. Ao final, os motivos por terem gostado ou não do filme nunca ficam claros, mas com certeza as expressões “é uma merda” ou “é do caralho” são repassadas aos amigos, sem um mínimo de substância para amparar.

No meu singelo pensar, é com qualidade no público que as transformações virão, sempre para melhor: melhores filmes, melhor distribuição pelas salas de cinema e pelos quatro cantos do país, debates, discussões e, ainda mais, a perspectiva de um cinema amazonense no futuro, forte e competitivo, instigante.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Gente nova no pedaço

Andei meio ausente nos últimos dias... sabem como é? Fim de um ano e começo de um novo são sempre atribulados.

O último post, como puderam notar, não foi feito por mim e sim pelo Sr. Matheus Gondim, também conhecido como o frontman da banda Soda Billy, banda da qual fui baixista por 03 anos, e que, recentemente, lançou seu primeiro CD autoral (muito bom por sinal! Recomendo). Ele passa a fazer parte das novos membros do blog, convidados por mim no intuito de agregar um pessoal de bom gosto e vasto conhecimento cultural pra enriquecer um pouco mais essas páginas.

Os outros convidados são Luís Henrique Medeiros, cinéfilo e fã de indie rock, Afrânio Azevedo, poeta, shoegazer convicto e recém descobridor das maravilhas do cinema do leste europeu e de outros cantos esquecidos do planeta e João Neto, punk rocker e colecionador de clássicos da telona.

Muitas novidades chegando! Acompanhem!

Abraços e um excelente 2011!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

TIPITI - Cooperar para mudar

O Texto abaixo se refere à mais nova iniciativa dos colegas músicos do Amazonas. Trata-se de uma cooperativa de músicos chamada TIPITI. Tomei conhecimento a partir de um e-mail da colega cantora Karine Aguiar sobre a mesma. Abaixo alguns parágrafos sobre essa iniciativa que eu vejo com bons olhos.

Primeiramente devo parabenizar a pessoa ou o grupo que teve a idéia de fazer essa cooperativa. A razão disso é que cooperativas representam, antes de tudo, autonomia em relação ao atraso que é o Estado. Eu sou anarquista confesso e vejo no Estado (democrático mesmo, explicarei logo abaixo) como o estágio mais elementar da organização política de um povo, aquilo que Marx havia explicitado como "estágio de transição" a uma forma de organização política autônoma e independente. O Estado, como conhecemos, é sim um passo à frente da barbárie, mas quilômetros atrás no que tange aos interesses orgânicos de uma sociedade. Não vou me atrever a ser alvo de criticas à toa por ser "mais um critico" do Estado, até porque em algumas situações ele funciona, sobretudo quando o nivel de complexidade da sociedade a qual ele "representa" é baixo, ou seja, quando não há tantas contradições a serem resolvidas.

Aliás, isso é um mar de rosas, quase um sonho, basta você se imaginar como prefeito de uma localidade onde o que for feito por você irá agradar a todos. Ora, isso é quase uma quimera. Mas é justamente aí que reside a contradição do Estado, pois, por mais que se use o adjetivo "democrático" ao seu lado, o que impera é o personalismo, a vontade de um Eu sobre os demais eus, e é quando a democracia se vê aprisionada, desacretidada e submetida ao ego de um persona, reduzindo muitas vezes o processo eleitoral de escolha de representantes a um grande teatro obrigatório. Vejamos no parágrafo seguinte como, diante de uma sociedade complexa formada por caboclos, ribeirinhos, indígenas, manauaras, paraquedistas e urbanóides (aqueles que só conhecem Manaus e as vezes só o Distrito Industrial), etc, se consegue esse mar de rosas das não-contradição.

A mecânica do Estado funciona quando seu líder convence, com sucesso, a maior parte a população de que suas metas, seus planos de governo, em suma, seus desejos, são o que há de mais importante a ser feito e de quando isso concretiza, de alguma forma, as vontades desse povo já convencido pelo discurso. Quando 80 a 90 % concordam com você TUDO fica mais fácil, não é mesmo ? Os outros 10 a 20% podem se enjaular em suas crises de não concordância com a situação, se embebedar, se matar, ou seja, serem desnutridos e ficarem à mingua e à margem do espirito democrático, pois quem é eternamente oposição na verdade está fora do jogo1 .

Os espaços artisticos foram "estatizados", não no estilo "cubano" de estatização de esquerda, mas no sentido puro e simples da viabilização da manifestação desse personalismo politico. Tirando os espaços da UFAM e seu potencial de produção cultural e alguns auditórios espalhados pela cidade, não sobrou muita coisa onde você possa levar um publico para estar em contato com sua produção artistica. A arte no Amazonas se tornou (com exceção de alguns poucos espaços) uma arte oculta. A arte e a cultura que se mostra é a arte que passa pelo crivo do persona. E sua concepção de arte não poderia deixar de ser personalista. A população foi convencida e assiste tudo que é oferecido pelo Estado de graça. Você, artista, tente fazer algo cobrando mesmo que 3 reais certamente correrá riscos. Daí a notavel tentação de se "atrelar" ao sistema e se entregar a lógica do "faça o que eu quero que faças", golpe de misericórdia em qualquer aspiração à criação, arte por encomenda2 ? Suspeito isso, não ?


Então, diante de uma iniciativa como essa da cooperativa, eu não posso deixar de expressar meus votos de boa sorte e minha felicidade ao saber que está surgindo uma reação e que, enfim, os colegas artistas enfm conseguiram superar essa crise edipiana representada até então no constante choro em busca de apoio junto ao Estado.

Em tempo, criticar o Estado não me torna necessariamente um liberal nem um anarquista, pois o anarquismo só existirá um dia se for em grupo. Isso apenas me dá a possibilidade de vender meu peixe sobre a importância do anarquismo como concepção politica de sociedade e reacender esse a discussão sobre esse assunto, tornando-o público. Ora, as cooperativas surgiram com os anarquistas no séc XIX, por isso o anarquismo aparece aqui como contra-ponto.

Não se trata de dar uma "banana" a quem acredita nessa democracia personalista, mas sim de convidá-los a dar o apoio a uma iniciativa ousada, por mais tímida que ela seja, no sentido de resgatar a dignidade do artista local e reacender a discussão sobre a cultura que se faz aqui.

Meus votos de que a cooperativa não seja apenas mais uma instituição burocrática de repasse e controle de recursos e que ela não se arme até os dentes como entidade controladora como a falida Ordem dos Musicos, e muito menos que caia na mão de mais um persona manifestando apenas suas intimas vontades, mas que ela possa, muito além disso, promover o preenchimento criativo desse vazio presente mantido pelo Estado e também pelos próprios artistas que até então insistiam em bancar o Édipo alcoolizado à sargeta de algum beco à espera de uma mãe. Não podemos esquecer que o cordão umbilical deve ser cortado após cumprir sua função na condução de nutrientes durante a gestação, fisio e simbolicamente falando.

1Um exemplo disso são os partidos de extrema esquerda (nunca eleitos), pois têm sua participação na democracia considerada uma piada de mal gosto, a presença deles no horario politico não é graças às idéias que defendem e sim graças a uma lei eleitoral que os ampara, sabemos que na verdade eles estão fora do jogo, como esteve o PT e o PC do B, ate perceberem que, se não mudassem o "discurso", iam continuar patinando ad eternum no cenário politico "democrático".
2 Aqui cabe uma outra discussão sobre o aspecto politico da arte, uma vez que sabemos que muitas das obras de arte que entraram pra história da humanidade foram encomendadas por representantes da nobreza. Aliás, arte e nobreza se relacionaram muitas vezes ao longo da história.


Matheus Gondim de Freitas Pinto
Pai, músico, filósofo e mestre em educação pela UFAM.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Camadas oníricas

É impressionante o poder de fascínio que os sonhos exercem sobre nós. Portais para outras dimensões ou tempos, reflexos de nossos inconscientes, projeções de nossas taras e traumas, espaço de assimilação de novos conhecimentos - muitas são as explicações para o sonhar, e ainda muito mais amplas são as possibilidades que reservam e os lugares e situações fantásticas onde nos levam.

Aproveitando-se disso, o diretor Cristopher Nolan, mais uma vez, deu um show no filme "A Origem" (Inception, USA, 2010), utilizando das terras de Lorde Morpheus para contar uma grande e complexa história. Sua capacidade única de criar narrativas não lineares demonstrada em seu debut hollywoodiano "Amnésia" (Memento, USA, 2000), foi extrapolada em "A Origem". No já clássico filme de 2000, a estória de Leonard Shelby, um homem que sofre de perda de memória recente e busca o assassino de sua esposa, é contada através de duas linhas narrativas. A primeira tenta mostrar ao telespectador como é viver redescobrindo o mundo e as verdades a cada momento, partindo sempre do que se vê agora na tentativa de montar o quebra-cabeças do passado. Em outros momentos, a estória é contada da forma linear, no sentido presente-futuro. Aquele filme já demonstrava toda a genialidade do diretor, que lhe rendeu, inclusive, uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original.

Em "A Origem" esta intrincada tecelagem temporal é levada ao extremo. Em determinados momentos, o filme é contado em 4 diferentes lugares, com percepção distinta do tempo em cada uma. Por isso mesmo, fora a qualidade da fotografia e da trama em si, vale a pena assistir novamente ao filme para, assim como "Amnésia", perceber os vários pequenos detalhes e o cuidado do diretor na montagem do filme.

Na versão em Blue-Ray, um segundo disco traz um interessante documentário sobre os sonhos, que muito me lembrou de "Waking Life", outro filmaço que merece um post próprio no futuro, ou, na visão de Nolan, em algum momento que poderia muito bem já ter acontecido, mas ainda não foi exibido para aumentar a tensão da trama.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Vazio sempre presente

Dia desses fizeram-me uma pergunta simples, mas que abriu uma enorme interrogação em minha cabeça:

"O que você quer fazer antes de morrer?"

Ora... tantas coisas! Tantos lugares pra conhecer, comidas para saborear, pessoas pra descobrir, novos sons pra me encantar... Ok, all right... Parei por um tempo para refletir, e percebi que estes clichês não têm uma forma concreta e, na verdade, são muito mais uma atitude de abertura para o mundo do que a definição de objetivos claros e precisos que criei para minha vida. Tentei, então, ir um pouco mais fundo e descobrir que sonhos não realizados existem dentro de mim. O que me motiva a seguir em frente? O que eu tenho que realizar antes de morrer? Por que eu faço um tremendo esforço e consumo recursos tentando manter-me vivo?

Depois de muito pensar, percebi que não há nada grandioso me empurrando para a frente. Grande vazio. Percebi vários motivos pontuais, a maioria imediatos, que me dirigem no dia-a-dia, mas nenhum grande objetivo. De fato, o que surgiu de todas essas ponderações foi a absurda necessidade de preencher conscientemente esse vazio. E hoje eu responderia àquela pergunta assim: "Antes de morrer que quero projetar um grande e inspirador sonho!"

----------------------------------------------------------

Tenho que ser justo e dizer que outra coisa que me inspirou a escrever este post foi descobrir, via minha amiga Samantha Avelino, que haveria um show do Stone Temple Pilots em São Paulo ontem, 09/12/2010. Sou fã dos caras. Adoro os discos deles e vejo-os como uma das maiores bandas rotuladas como grunge, apesar de considerar o som deles muito mais próximo do rock de arena do Led dos anos 70, do que do som do Alice in Chains, por exemplo. Infelizmente, não pude ir ao show, mas fiquei morrendo de vontade!

Procurando uma música deles para postar, lembrei de "Big Empty" e na mesma hora revivi toda aquela sensação de vazio descrita acima. Confiram este fantástico som (e se possível procurem pela versão original, que também fez parte da trilha sonora do primeiro filme "O Corvo", com o Brendan Lee):