sábado, 21 de janeiro de 2012

O Mundo sem vilões...


Incrível a capacidade que os pequenos têm de nos surpreender e geralmente ela surge nos momentos lúdicos quando estamos envolvidos com eles, imersos na brincadeira. A imersão - quando você se desliga do mundo adulto e adentra o universo infantil - é uma experiência super importante para a relação com meu filho, o pequeno Thomas, na qual eu procuro não atender ligações e não lidar com problemas que me cercam, é o momento da trégua, pois é o momento dele e acreditem, o resultado é um rosto feliz e um "Eu te amo pai" que não há palavra pra expressar!

Vou contar um pouco da minha surpresa na ultima brincadeira, mas antes vou falar um pouco de Nietzsche, o filósofo maldito. Maldito entre entre outras coisas por ter lançado uma ideia cuja força ultrapassou a arena do bem e do mal como aquelas tacadas de baseball que vemos nos filmes onde a bola some no céu. A ideia do "para além do bem e do mal" é isso, a possibilidade de pensarmos em algo que se coloca para além de A e B, de 1 e 2 de < ou >. Enfim, algo que promove uma forte ruptura com o eterno jogo de pingue-pongue de onde parece ter se originado toda a saga do gênero humano desde os tempos imemoriais. De fato, as guerras e a tensão contra os "filhos da puta do lado de lá" parecem reger nossa história, como se "sem tensão não há tesão", que aqui não se configura como algo meramente sexual, mas o próprio tesão em viver mesmo. O "nós" só existe se houver o "eles" e de preferência se esse "eles" forem os caras maus. Essa é a nossa saga: castelos, fortalezas, muralhas, até a Estrela da Morte do Império de George Lucas, tudo para lidar com o outro lado. O cometa de Nietzsche supera isso e dá um novo significado a essa luta entre contrários resignificando cada elemento como um agente de força apenas ou seja, A detém força assim como B, nenhum possui uma etiqueta que os identifique como bom ou mal, são forças que podem se confrontar ou se ajudar.

Essa concepção nietzscheana é muito útil à compreensão como ferramenta aplicada às análises políticas do passado ou contemporâneas a respeito da busca e consolidação do poder. Através delas é possivel entender que não há mocinho nem bandido quando o objetivo é o poder enquanto alvo e enquanto prática. Qualquer exemplo que se mostre não irá resistir a uma análise profunda e logo os traços de "vilão" logo começarão a aparecer, mesmo no mais bonzinho de todos. É um "esforço em vão", já dizia Nietzsche pois, diante do olhar do lobo (força maior), tanto faz a pelagem(o discurso) da ovelha. Perceba que não se trata de mais uma vez resgatar o relativismo pós-moderno que transformou a humanidade em um arquipélago incomomunicável, onde todos estão conectados mas ninguém fala nada porque "cada um tem o seu". Também de que não se trata de negar que no mundo haja gente ruim da pior espécie. A questão é que, em se tratando de poder, as regras são outras, e os demônios e anjos deixam seus adereços do lado de fora do ringue.

Não deixa de ser válido, por mais indigesto que seja ( e os advogados de defesa de delegacia o vivem fazendo) analisar os dois lados, lembrando que analisar não é o mesmo que concordar. Sem duvida Bin Laden foi um dos maiores "bad guys"da humanidade, mas mesmo ele tinha suas razões, das quais nunca vamos saber ao certo tamanha a complexidade de sua relação com os EUA, ora amistosa ora conflituosa. O fato é que os vilões são dialeticamente necessários para compor qualquer enredo de um herói, mas muitas vezes os vilões são meros bodes expiatórios cuja função é servir de fonte de glória para o herói, quantas vezes já nos deparamos com religiosos radicais que passam o dia falando do mal , bem mais do que no bem ? E muitas vezes no final aplaudimos, por ignorância ou cinismo, aqueles que são os "verdadeiros filhos da puta".

De volta à brincadeira, de um modo geral ela vai se formando a partir de si própria, sem um roteiro prévio e é uma de suas fontes de alegria e diversão. E o diálogo que antecedeu a última brincadeira foi assim:


- Papai ?? Hoje na brincadeira não vai ter gente do mal (disse Thomas).

- Como assim? (eu perguntei)

- Hoje nós vamos brincar sem ninguém do mal.(disse ele)

- E como faremos pra montar uma estória sem eles ? (eu perguntei)

- Os colegas vão se ajudar e vão brincar juntos! Papai!

Fiquei surpreso pois não havia me dado conta de que, mesmo sendo leitor de Nietzsche e de "já saber" disso, que nossa existência independe de vilões, eu estava repetindo o caminho da dialética cansada dos velhos quadrinhos e muito comum nos roteiros rasteiros e manjados. Ponto pro Thomas, que pensou em uma brincadeira não necessariamente pautada na luta entre o bem e o mal, mas na solidariedade, pois um carrinho ajudou o outro a sair da lama e no final todos apostaram uma corrida.





segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O amor em tempos de Zumbis


Dizer que é muito bom quando o som ou a poesia que você curte influencia no seu trabalho é lugar comum, meio que óbvio para quem trabalha com criação. Isso se estende para outras áreas não necessariamente de vanguarda, pois as vezes algo simples, no aqui e agora, já é o suficiente para dar o contorno que é preciso. O tema dos zumbis não é novo na cultura pop e está longe ( e nem deve) de conseguir unanimidade entre os críticos, não à tôa, Saramago pediu para que tomassem cuidado com a adaptação de sua obra "Ensaio sobre a Cegueira" justamente para que não se tornasse (mais) um filme de zumbis. O exemplo do mestre Saramago é apenas um dos inúmeros existentes contrários à cultura zumbi, julgada de "mal gosto", demasiadamente "trash" e sem graça como qualquer outra coisa quando comparada aos monstros clássicos.

Assim, zumbis são malquistos e desprestigiados entre os críticos. Mas talvez porque seus olhares se prendem àquilo que é claramente visível na pele, diga-se de passagem, no podre, na decomposição, no sangue coalhado, grunidos, olhos saltados e esbranquiçados e todos os recursos que os mestres de maquiagem conseguem trazer para a tela. O fato é que há pouca reflexão sobre esses mortos que andam.

É possível captar uma representação nessa temática ? Creio que sim, afinal o que está sendo dito é que a sociedade contemporânea, assim como qualquer outra coisa que se configura no plano real das coisas, é passível de um fim e que este fim pode se apresentar de várias formas, mas independente da forma como se configura a ameaça, seja através de um vírus, de um cometa, de vampiros, de terroristas, de fanáticos religiosos, etc, sempre o que está sendo ameaçado são os laços afetivos, os laços que nos unem. Engana-se quem pensa que é a propriedade. Eu aposto que se houver um novo Orson Wells em nosso tempo a falar na rádio, televisão ou internet sobre uma ameaça em larga escala e com alto poder de destruição se você, caro leitor, não vai pensar (digo se preocupar mesmo) imediatamente nas pessoas que você ama, seu filho ou filha e sua amada(o)...foda-se o carro novo, a geladeira cheia de bohemias, sua coleção de selos e discos...você vai querer muito é ver essas pessoas. Exemplo disso foi o apagão ocorrido há poucas semanas atrás aqui em Manaus, onde a perda de sinal elétrico naquela noite inviabilizou todo e qualquer tipo de comunicação e de locomoção das pessoas, elevando a tensão nas ruas e nos locais de grande concentração de pessoas como shoppings, onde as pessoas não conseguiam sair do estacionamento devido à escuridão e outras ficaram presas por horas nos elevadores.

Não à tôa, em filmes de zumbi, esse recurso é bastante utilizado para aumentar a tensão em algum momento: o pai ou namorado que cruza a cidade infestada para tentar achar seu ente querido, o que geralmente acaba dando errado. Ao contrário do personagem caipira de raiz Daryl Dixon, que procura manter apenas uma taxa de 10% envolvimento com os demais sobreviventes de The Walking Dead e acabou se tornando um ídolo na série, porque a aparente ausência de envolvimento emocional o torna livre a ponto de seguir trilhas sozinho munido de um Horton Scout crossbow (tipo de arco) com apenas uma flecha. Mas não se enganem, ele talvez seja um dos personagens que mais sente essa agonia a qual me refiro, essa agonia do NADA, de até então lutar contra uma sociedade injusta e simplesmente um dia acordar com ela em pedaços e não saber lidar com isso, sentir na pele a angustia de viver em um lugar tomado pelo nada, ali por onde a morte andou.

Esse é o mérito do roteiro zumbi, seja ele adaptado para uma HQ, um curta ou longa, não é apenas o "gore", o trash e o xarope de groselha, mas a sensação de desamparo que um mundo tomado por mortos proporciona aos que ainda conseguem sentir isso. E os filmes de zumbis que conseguiram obter esse êxito de nos transmitir o fim das leis, o fim do bom senso, a inversão da estética, o despedaçar das relações e a fragmentação do convívio social acabam, para os olhares mais atentos, ultrapassando a mera categorização de "filme de terror". Os zumbis de "The Walking Dead" são o pano de fundo, eles estão presentes, mesmo que ausentes. A trama é humana, suas relações e posicionamentos diante do real indigesto é que conduzem o roteiro da HQ que está sendo muito bem adaptada às telas.

Tão bem que inspirou a mim e a Rayssa a compor uma musica chamada "Bad Days" cuja letra nada mais é do que um conto de amor de um cara que simplesmente perdeu sua amada durante o caos instaurado. Os zumbis aparecem na letra condensando tudo de ruim que pode haver em uma situação como essa, mas não o suficiente para impedir de procura-la até o inferno, se for preciso. Abaixo segue a letra, com alguns possíveis erros no inglês. Do caos também se inspira.

Abraço

Matheus Gondim

BAD DAYS (Dry Martinis)

He will never forget that day
The day when the deads came away
band of bag of bones, blood, flesh n´ flies
That day he knew he couldn´t hide

He search her on the streets, highways, roads burnin your feet
still feeling your smell, will not give up, insisting to the hell

Buddy says That ll´ be the Day
The day when you say goodbye
But was not the time and day to die
That day he knew he couldn´t cry

REFF

He will never forget that day
The day when the deads go away
No more bones, blood, flesh n´ flies
But now he knows that don´t need to die

REFF

FIM