Primeiramente devo parabenizar a pessoa ou o grupo que teve a idéia de fazer essa cooperativa. A razão disso é que cooperativas representam, antes de tudo, autonomia em relação ao atraso que é o Estado. Eu sou anarquista confesso e vejo no Estado (democrático mesmo, explicarei logo abaixo) como o estágio mais elementar da organização política de um povo, aquilo que Marx havia explicitado como "estágio de transição" a uma forma de organização política autônoma e independente. O Estado, como conhecemos, é sim um passo à frente da barbárie, mas quilômetros atrás no que tange aos interesses orgânicos de uma sociedade. Não vou me atrever a ser alvo de criticas à toa por ser "mais um critico" do Estado, até porque em algumas situações ele funciona, sobretudo quando o nivel de complexidade da sociedade a qual ele "representa" é baixo, ou seja, quando não há tantas contradições a serem resolvidas.
Aliás, isso é um mar de rosas, quase um sonho, basta você se imaginar como prefeito de uma localidade onde o que for feito por você irá agradar a todos. Ora, isso é quase uma quimera. Mas é justamente aí que reside a contradição do Estado, pois, por mais que se use o adjetivo "democrático" ao seu lado, o que impera é o personalismo, a vontade de um Eu sobre os demais eus, e é quando a democracia se vê aprisionada, desacretidada e submetida ao ego de um persona, reduzindo muitas vezes o processo eleitoral de escolha de representantes a um grande teatro obrigatório. Vejamos no parágrafo seguinte como, diante de uma sociedade complexa formada por caboclos, ribeirinhos, indígenas, manauaras, paraquedistas e urbanóides (aqueles que só conhecem Manaus e as vezes só o Distrito Industrial), etc, se consegue esse mar de rosas das não-contradição.
A mecânica do Estado funciona quando seu líder convence, com sucesso, a maior parte a população de que suas metas, seus planos de governo, em suma, seus desejos, são o que há de mais importante a ser feito e de quando isso concretiza, de alguma forma, as vontades desse povo já convencido pelo discurso. Quando 80 a 90 % concordam com você TUDO fica mais fácil, não é mesmo ? Os outros 10 a 20% podem se enjaular em suas crises de não concordância com a situação, se embebedar, se matar, ou seja, serem desnutridos e ficarem à mingua e à margem do espirito democrático, pois quem é eternamente oposição na verdade está fora do jogo1 .
Os espaços artisticos foram "estatizados", não no estilo "cubano" de estatização de esquerda, mas no sentido puro e simples da viabilização da manifestação desse personalismo politico. Tirando os espaços da UFAM e seu potencial de produção cultural e alguns auditórios espalhados pela cidade, não sobrou muita coisa onde você possa levar um publico para estar em contato com sua produção artistica. A arte no Amazonas se tornou (com exceção de alguns poucos espaços) uma arte oculta. A arte e a cultura que se mostra é a arte que passa pelo crivo do persona. E sua concepção de arte não poderia deixar de ser personalista. A população foi convencida e assiste tudo que é oferecido pelo Estado de graça. Você, artista, tente fazer algo cobrando mesmo que 3 reais certamente correrá riscos. Daí a notavel tentação de se "atrelar" ao sistema e se entregar a lógica do "faça o que eu quero que faças", golpe de misericórdia em qualquer aspiração à criação, arte por encomenda2 ? Suspeito isso, não ?
Então, diante de uma iniciativa como essa da cooperativa, eu não posso deixar de expressar meus votos de boa sorte e minha felicidade ao saber que está surgindo uma reação e que, enfim, os colegas artistas enfm conseguiram superar essa crise edipiana representada até então no constante choro em busca de apoio junto ao Estado.
Em tempo, criticar o Estado não me torna necessariamente um liberal nem um anarquista, pois o anarquismo só existirá um dia se for em grupo. Isso apenas me dá a possibilidade de vender meu peixe sobre a importância do anarquismo como concepção politica de sociedade e reacender esse a discussão sobre esse assunto, tornando-o público. Ora, as cooperativas surgiram com os anarquistas no séc XIX, por isso o anarquismo aparece aqui como contra-ponto.
Não se trata de dar uma "banana" a quem acredita nessa democracia personalista, mas sim de convidá-los a dar o apoio a uma iniciativa ousada, por mais tímida que ela seja, no sentido de resgatar a dignidade do artista local e reacender a discussão sobre a cultura que se faz aqui.
Meus votos de que a cooperativa não seja apenas mais uma instituição burocrática de repasse e controle de recursos e que ela não se arme até os dentes como entidade controladora como a falida Ordem dos Musicos, e muito menos que caia na mão de mais um persona manifestando apenas suas intimas vontades, mas que ela possa, muito além disso, promover o preenchimento criativo desse vazio presente mantido pelo Estado e também pelos próprios artistas que até então insistiam em bancar o Édipo alcoolizado à sargeta de algum beco à espera de uma mãe. Não podemos esquecer que o cordão umbilical deve ser cortado após cumprir sua função na condução de nutrientes durante a gestação, fisio e simbolicamente falando.
Matheus Gondim de Freitas Pinto
Pai, músico, filósofo e mestre em educação pela UFAM.