sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Quem procura, acha (ou como o Restart virou os Beatles dos nossos dias)

Ouço constantemente amigos reclamando sobre os rumos da música contemporânea, normalmente utilizando o argumento de que já não se fazem mais músicas como antigamente. Em certa medida, eu até concordo com eles. Não se fazem mais músicas como antigamente, justamente porque hoje não é antigamente!

Os tempos são outros, as tecnologias são outras, o mercado é outro e o público também. As inquietações básicas permanecem, mas novas questões são colocadas à frente do ser humano a cada dia, gerando novos pontos de vista e de reflexão. Nem mesmo os meios através dos quais se propagam as novas canções são iguais. Da materialidade e raridade (e porque não falar da sacralidade) do Vinil à ubiqüidade, banalidade e facilidade de proliferação dos formatos digitais disponíveis na rede. Walter Benjamin, na década de 30 do século passado, já falava disso ao sentir indícios da dessacralização da obra de arte, uma vez que a mesma deixara de ser a única, processo esse amplificado com o surgimento da Indústria Cultural.

Os Beatles do começo da carreira eram completamente diferentes dos Beatles dos últimos discos. Se os caras estivessem juntos ainda hoje, seus novos discos certamente iriam soar diferentes e desagradariam muitos fãs. Fenômenos da dimensão de Led Zeppelin e U2 não acontecerão novamente. Não da forma como aconteceram, pois a própria indústria e o cenário onde puderam se desenvolver mudaram de tal forma que seria simplesmente impossível reproduzir as circunstâncias nas quais se geraram estes mitos.

Só posso imaginar como deveria ser a ansiedade de ficar sabendo que o Pink Floyd havia acabado de lançar um disco novo e aguardar meses (e até anos) para poder finalmente me deliciar com aqueles novos mundos inexplorados. Cheguei a sofrer dessa ansiedade aguardando um bom tempo para colocar as mãos em alguns CD’s. Não esqueço dos meses de ansiedade que antecederam a primeira audição de discos como “KID A” do Radiohead e o “Load” do Meatallica (assim como o prazer indescritível após a audição do primeiro e a grande frustração inicial causada, inicialmente, pelo segundo).

Nas décadas de 70, 80 e 90, valia a pena para as gravadoras abraçar um grande artista e dar-lhe espaço para o desenvolvimento de obras-primas. Os contratos eram milionários e previam a gravação de vários álbuns. Esse investimento era recompensado pela grande quantidade de discos vendidos, e, por isso valia a pena gastar mais alguns milhões em marketing, transformando os caras em lendas vivas.

Hoje, o cenário é outro. Vendem-se muito menos discos, qualquer um pode gravar um disco em casa, e a chance de um artista hoje genial tornar-se passado em três meses é muito grande. Dessa forma, a forma das gravadoras trabalhar (e criar lendas) mudou. Eles já não podem esperar que um grande talento leve 3 ou 4 discos para chegar à sua obra-prima. Elas precisam ser geradas logo de cara. O problema é que o conceito de obra-prima para quem está visando retorno financeiro é bem específico – diz respeito a atender a demandas do mercado. Ou seja, tem um monte de gente querendo comprar discos do Fresno e surge, concomitantemente, surge uma moda revival dos anos 80, por que não pegar uns garotinhos que tocam igual ao Fresno e se vestem igual a um clássico da Sessão da Tarde? BUMBA! E dá-lhe explosão de Restart’s e Cine’s da vida.

O som é bom? Não posso nem julgar. Consegui ouvir muito pouco tempo e não fez meu gosto. Mas devem agradar a muita gente porque não param de ganhar prêmios (muitas vezes bancados pelas gravadoras) e de tocar nas rádios (à base de muito jabás). Infelizmente, Justin Bieber, Lady Gaga, Fresno, Cine e afins são os Beatles do nosso tempo. Não em termos de qualidade, longevidade ou talento, mas em termos de produtos oferecidos pela Indústria Cultural de Massa.

Contudo, se você tiver um pouquinho mais de paciência, tempo e os ouvidos abertos a novos acordes, existe um mundo (ou pelo menos o suficiente para formar uma pequena nação) de bandas independentes fazendo som de qualidade ao redor do mundo e divulgando seu trabalho pela internet, com o simples propósito de fazer música de verdade, e quem sabe conseguir viver disso. Basta procurar.

Tem muita coisa boa rolando por aí e eu recomendo a todos que dêem um giro nos blogs dedicados à música antes de falarem novamente a infame “Não se faz mais música boa...”.

Em homenagem à caça por novos sons, vou colocar aqui um vídeo de uma bandinha que conheci esses dias. Sonzinho bem legal e cujo nome me inspirou a escrever esse texto: The go find.

Confiram o vídeo e fica o convite, inquietem-se todos e vamos atrás de novos achados musicais!


4 comentários:

George Costa disse...

A questão é o Oba-oba, os beatles tiveram muito isso, milhares de fans enlouquecidas vangloriavam qq gesto deles, isso continua, só que as gravadoras perceberam que não importa a qualidade da música, nem banda, nem nada, o oba-oba vai sempre existir.

As gravadoras aprenderam que é mais fácil ainda usando estratégia de marketing, colocando os caras das bandas em capas de revistas teen, trazendo eles pra perto das fans, fazendo com que eles se identifiquem com a personalidades deles.

Então essa bandas entram e saem do cenário com a mesma velocidade que foram concebidas. Tudo porque existe uma massa de jovens que em crise de identidade na adolescência que procura pra se encontrar, fazer parte de alguma coisa, e vê-se parte desse Oba-Oba.

Mais importante é que hoje essa massa jovem tem cada vez mais poder aquisitivo, gastam milhões em qq cacareco que leve o nome da banda, isso tudo é claro com os devidos royalties das gravadoras.

Mas uma hora esse oba-oba passa, as pessoas ficam maduras, começam a ter mais senso critico, e quem sabe tomam coragem para pesquisar algumas coisas novas, ou velhas.

Lely disse...

Os produtos oferecidos pela Indústria Cultural de Massa sempre estiveram por ai... Agora talvez mais evidente que antes...

Vc não acha mega-cliché esse negócio de "no meu tempo tudo era melhor"? hehehe. É tudo uma questão de zona de conforto. :)

Moysés Alencar de Carvalho disse...

Não tem jeito, realmente. As gravadoras (99% delas) tem como finalidade maior o lucro. Poucas são as que se preocupam com a qualidade do conteúdo que vendem. Posso citar a Trama e o selos Matador e Fósforo como exemplos de comprometimento com boa música. No entanto, tenho certeza que elas pagam um preço caro por isso.

A música é mais um produto, e como tal acaba passando pelas mãos de marketeiros e publicitários que estudam muito bem o mercado antes de investir muita grana em novos artistas.

O problema é se acomodar e acreditar que só existe no mundo aquilo que os grandes veículos chancelam. Quem fica parado tem muito menos ângulos para observar o mundo.

Moysés Alencar de Carvalho disse...

Lely, com certeza.

Toda vez que eu ouço isso passo mal... hehehhe...

Não conseguir perceber nada de bom feito atualmente significa estar se limitando ao que lhe é imposto (e só vão te oferecer o que está gerando lucro para alguém hoje) ou ter a mente muito estreita e fechada ao novo, porque há tanta coisa sendo produzida hoje que é difícil crer que nada seja capaz de agradar. Tem de tudo, inclusive gente praticamente dando sequência aos trabalhos das bandas mais clássicas do Rock 'n Roll.

Ouvi, nos últimos anos, muitas bandas que me remetiam precisamente a trabalhos do Black Sabbath, Cream, Hendrix, Led, entre outros. Ou seja, se você tá sentindo falta de material novo desses caras, é só procurar um 'filho bastardo' que faz exatamente o que os clássico-inspiração fazia há décadas.