Em agosto de 2010, durante uma semana, participei do curso ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, sobre “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográficas”. Para quem não conhece, o mesmo é Editor e criador do site Cinema em Cena. Fato é que o curso serviu não só para ensinar a “olhar o cinema”, mas principalmente desencadear nos participantes o senso crítico e uma leitura mais acurada de todos os detalhes que permeiam a obra transposta na tela.
Primeiramente, não se quer aqui estipular um gosto geral ou superior, isto é, não estou dizendo que todo mundo deve amar “Cidadão Kane” e considerá-lo o melhor filme de todos os tempos, eu particularmente ainda não compartilho desse “amor”, mas claramente sei identificar alguns bons motivos que levam tal filme a ser cultuado.
É por aí que destaco a qualidade do público, a capacidade de identificar os detalhes do filme, posicionamento de câmera, atuação, fotografia, direção de arte, figurino, montagem, etc. Pequenas características que comumente passam despercebidas, mas que podem influenciar ainda mais na sua admiração pela obra. Enfatizo questão explicitada no curso sobre a necessidade de justificar seu gosto e sua escolha, não se contentar simplesmente em dizer que o filme é ruim, ou bom, ou chato. O que te leva a pensar dessa forma? Não basta ver muitos filmes, é preciso talvez “degustar”, como se faz com o vinho. Mas saindo do sentido figurado, é preciso refletir sobre o que se viu, o que foi passado, a tal da mensagem, tudo faz parte. No mínimo, deve-se saber por que gostou ou por que não gostou.
Dois exemplos recentes, que percebi durante a projeção e serviram para formar melhor meu convencimento sobre as respectivas obras, talvez tenham me tornado um cinéfilo um pouco melhor e ilustram bem o assunto tratado.
Primeiro o filme RED. Especificamente falando do personagem do Karl Urban. Ele é apresentado falando com a mulher, dando o tom leve do filme, mas de repente já aparece friamente assassinando uma pessoa, chutando uma cadeira e fazendo com que a mesma se enforque. A partir daí, como se fosse uma cópia, o mesmo passa a desempenhar o papel daquele responsável por matar o mocinho, tal qual em Supremacia Bourne. Mas o caminho final que será seguido por ele só é devidamente mostrado quando o retrata como o pai de família, mostrando-o em casa no quarto da filhinha. O diretor simplesmente trouxe o público para perto e pode-se ter certeza absoluta que ao final ele não morrerá, ainda ajudará o mocinho. Por mais que pareça mero detalhe e passe despercebido, fato é que instintivamente o espectador foi levado pelo diretor a se afeiçoar ao “vilão”. Mas foi de mau gosto, artificial e acabou por tornar o filme mais sem graça ainda, adiantando inclusive o final.
Outro ponto está em “A Rede Social”, que me fez gostar ainda mais do filme. A cena em questão talvez seja a mais importante, pois retrata exatamente o momento em que Mark deixa de ser o simples geek inteligente para virar o “cara”. Falo da cena em que o personagem Sean Parker telefona para Mark, dizendo que foi preso, que armaram pra ele, mas que vai ficar tudo bem. Perceba a mudança no rosto de Mark, como ele deixa no ar que Sean não faz mais parte e que agora só há um responsável pelo futuro do Facebook, mas principalmente, repare no apagar de uma luz da sala ao fundo. Tenha plena certeza, não foi um equívoco, foi narrativa cinematográfica, um servente qualquer não apagou por acaso a luz enquanto o diretor filmava, resta saber o que aquele ato quis dizer pra você. Pra mim ele disse muita coisa, aquela cena me disse tudo: como nasceu o bilionário que hoje comanda uma das maiores empreitadas no mundo. Aquele momento é definitivo, deixou de ser aquele menino influenciado por todos, passou a ser o homem de negócios que comanda o Facebook, disse “acabou pra você aqui Sean”. É puro cinema, estudo de personagens.
Esses exemplos não só demonstram como a experiência de assistir a um filme pode ser ainda melhor, mas desencadeiam uma outra questão crucial para os dias atuais e que é o motivo do artigo: a partir do momento em que o público se tornar mais exigente, for mais instruído em termos cinematográficos, ler mais, entender mais, isso forçará os grandes estúdios e realizadores a buscarem também a qualidade dos filmes, o que enseja a própria evolução do cinema. Isso sempre aconteceu e sempre vai acontecer, mas pode se dar em maior ou menor medida desde que o público se mostre capaz de absorver essa gama de informações.
Tenho que dizer, sinceramente me incomoda ver pessoas que vão ao cinema simplesmente por não ter mais o que fazer, pra ver qualquer filme de qualquer forma, sem nenhuma pretensão de sequer prestar atenção ao enredo. Isso acontece diariamente e são esses tipos que geralmente falam durante o filme, atendem celular e fazem barulho. Ao final, os motivos por terem gostado ou não do filme nunca ficam claros, mas com certeza as expressões “é uma merda” ou “é do caralho” são repassadas aos amigos, sem um mínimo de substância para amparar.
5 comentários:
Concordo com você em vários aspectos, Luís. Mas não usaria o termo "qualidade do público", pois este tem remete a característica intrínsecas e, a princípio, inalteráveis.
Prefiro usar falar sobre a bagagem sociocultural do receptor e de sua capacidade em perceber, decodificar e (re)interpretar o conteúdo simbólico das obras. Essa questão é antiga e muito debatida, existindo, inclusive correntes acadêmicas voltadas a este estudo. Lembro de ouvir uma exposição interessante a respeito do papel do receptor do texto jurídico, num congresso que participei em Salvador em 2008.
Isso se dá com toda obra do intelecto humano - música, literatura, cinema, poesia, pintura e etc. O autor coloca em sua obra uma série de referências, pontos de vista, questionamentos e reflexões que serão materializadas e resignificadas ao atingirem o receptor e por este serem processadas.
Certamente, quanto mais ampla for a base dos conhecimentos do receptor, mais apto este estará a compreender obras complexas, cheias de camadas e abstratas, demandando muito menos obviedade por parte do autor.
Num país como o nosso, no qual a educação e a leitura ainda são encarados como ferramentas descartáveis, a tendência é a criação de um público com um nível muito raso de interpretação e compreensão. Boa parte dos estudantes brasileiros não conseguem compreender um parágrafo inteiro e simples, pois são acostumados e condicionados a lerem de forma meramente funcional.
Não é à toa que alguns dos maiores sucessos da música popular brasileira tem títulos como "Segura o Tchan", "Dança da Vassoura", "Maionese", e outras milhares cuja temática principal órbita em torno do ciclo "amor-traição-desilusão-saudade-reconciliação". Nesse caso, o público não precisa interpretar nada. Está tudo lá, tão explicito e carente de interpretação quanto possível.
Agora, não dá pra querer que uma pessoa que mal consegue por comida em seu prato preocupe-se em buscar aprofundar seus conhecimentos. Devemos muito disso aos nossos governantes de looooonga data, que ainda hoje, apesar de tudo continuam apostando numa educação que muito mais adormece do que desperta para a realidade.
Bom texto!!
Gostaria de ter participado do curso do Pablo Villaça, pois gosto muito do trabalho dele como crítico!!
Entretanto,concordo com o comentário do Moysés a bagagem sociocultural do receptor vai além do termo "qualidade do público"...
Entretanto, eu compreendo que há uma certa revolta qnd percebemos que algumas pessoas que têm perfeitas condições de irem além de sua zona de conforto ao apreciar uma obra - seja cinematográfica ou musical ou literátia, etc - e simplesmente não o fazem, quer seja por preguiça mental ou por falta de sensibilidade, ou qq outra razão... Enfim,é uma triste realidade.
Moysés, concordo que vai do receptor, realmente posso não ter usado a palavra mais adequada, contudo, acho q o ponto principal da discussão foi passado, ou seja, melhor das condições cinematográficas no EStado também depende em grande parte do público.
Quanto ao menos privilegiados, sinceramente, concordo que com as dificuldades diárias, que não são poucas, fica quase impossível pensar em aprofundar estudos e desenvolver um maior senso cultural. Mas o artigo (se é que posso chamá-lo assim) está diretamente relacionado às classes A, B e C, ou seja, nossos amigos do churrasco, o pessoal que vai pro all night, teus clientes do escritório, funcionários aqui do trabalho, etc. Levando em consideração esse nicho, muito poderia ser alcançado com um pouco de interesse, mas isso não ocorre.
Concordo, Luís. E isso tem muito a ver com o texto que havia postado anteriormente sobre aquele papinho de "não se faz mais música como antigamente". Falta um pouco mais de curiosidade, de vontade de explorar e dar espaço ao novo. Uma acomodação grande que adormece os cérebros de quem poderia tirar muito mais proveito de sua posição privilegiada na sociedade.
Contudo não devemos esquecer que esse exercício da sensibilidade (para resumir tudo o que foi dito aqui sobre o aspecto estético do receptor) não vem sendo praticado não apenas pelas classes menos favorecidas, trata-se de algo generalizado por todo lugar.
A idiotice é universal, o que justifica pra mim pessoas de classe média ao final de uma sessão de "Cisne Negro" em uma das salas do Millenium sairem descendo as escadas reclamando, xingando o filme e desejando seu dinheiro de volta.
Demorei pra entender o que o amigo Marivon queria dizer quando se referia à "Cultura de Analfabetos" que cresceu proporcionalmente à economia do país nos ultimos anos.
Hoje qualquer um pode comprar uma televisão LCD, parcelada em varias vezes, mas isso tem um preço, pois a educação em nosso país ainda é uma fraude. Vamos ficar iguais aos americanos nos 90, ricos e ignorantes, salvo exceções aqui e acolá.
Alguem poderia me objetar dizendo: Mas Matheus, nunca se vendeu tanto livro quanto agora!
Ora, Paulo Coelho, "O vendedor Pit Bull" "Casal inteligente enriquece junto" Quem roubou meu queijo" , "101 segredos de sucesso" não, nada disso conta...isso é apenas a idiotice na forma de um livro.
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